segunda-feira, 1 de junho de 2020

A COMUNICAÇÃO INTERNA EM MOVIMENTO

 Profa. Dra. Maria Francisca Magalhães Nogueira
Profa. Mestra Rose Mendes da Silva

O ser humano, por excelência, é gregário. A comunicação com o outro é fulcro de um processo de ‘peregrinação’ na busca por comungar, participar de experiências que lhes acrescentem motivação para a vida, para o trabalho, para os negócios, entre outros.
Afinal, o contato com a empresa, chão ‘sagrado’ para a qual o colaborador se preparava pelo rito de colocar os sapatos para a vida social e prática, parece estar longe de se realizar.
Talvez, nunca as empresas precisaram tanto se pôr em movimento em direção a seus colaboradores, afinal a maioria das pessoas está trabalhando remotamente. Então, como manter estas pessoas alinhadas à filosofia, às políticas e aos objetivos estratégicos de suas empresas? Afinal, nem todas estavam preparadas para o uso de tantas tecnologias disponíveis.
Refugiados em home office e home school, por causa da pandemia, as pessoas nunca estiveram tão conectadas. Sendo assim, as empresas precisam ensinar a usar as novas tecnologias, a dominar suas linguagens e, ao mesmo tempo, motivar os indivíduos a desenvolver seu trabalho em tempo hábil e de forma virtual. Os tempos mudaram. Será que há a emergência de um novo modo de trabalho e de educação? Que lembranças têm as pessoas do seu trabalho presencial? Que significado estão dando a esta experiência compartilhada através da tecnologia?
Talvez seja permitido, aqui, a partir destas e de outras perguntas, questionarmo-nos acerca da emergência desse novo tempo, que talvez venha a se consolidar e a se projetar em linhas de continuidade entre o presencial e o virtual. E é assim, dentro dessa perspectiva do ‘tempo’ online, em suas mais diversas modalidades, que a comunicação interna das empresas deve ser repensada.
Sendo assim, os testemunhos isolados – os colaboradores –, precisam de incentivo acerca do esforço que estão fazendo para se adaptar ao novo momento. Para isto, algumas ações podem se exercitadas pelas empresas: 1) abrir um espaço para que eles possam compartilhar seus anseios e dificuldades; 2) criar um happy hour virtual que seja um fórum para que cada um tenha a oportunidade de falar sobre sua rotina e sobre suas dificuldades; 3) criar uma rotina de comunicação sobre a pandemia e, além disso, 4) criar um e-mail que sirva de referência para eles e seus familiares, abrindo um canal de acesso para dúvidas e sugestões.
Em síntese, o trabalho e a escola são a casa por substituição, a morada que deve acolher, sossegar, tranquilizar. É em torno da segunda casa, fisicamente ausente, que as empresas precisam trabalhar a comunicação interna para que ela propicie a emergência de uma sociabilidade mais convivial, em que afinidades, cumplicidades e trocas de emoções criem uma ‘comunhão’.

terça-feira, 26 de maio de 2020

O NOVO NORMAL



Profa. Dra. Maria Francisca Magalhães Nogueira
Profa. Dra. Divina Marques.
Profa. Dra. Adriane Nascimento

Imaginamos como os alunos devem estar apreensivos com o futuro profissional, afinal o mercado está mudando muito rapidamente. Hoje fala-se no ‘novo normal’, mas o que será isto? Segundo Maria Aparecida Rhein Schirato do Insper (2020) o novo normal “seria a proposta de um novo padrão que possa garantir nossa sobrevivência”. Nesse novo normal percebemos que algumas coisas começam a se modificar em nosso comportamento. Talvez comecemos a pensar que não há necessidade de se percorrer grandes distancias e enfrentar um trânsito infernal para participar de uma reunião, porque há um google meet.
No entanto este ‘novo normal’ não é tão novo assim. As compras antes eram realizadas em mercados pequenos até que em Chicago nos Estados Unidos (EUA) foram criados os supermercados, porque tinham a condição de vender em grande escala e baixar os custos. Então, quer dizer que as vendas em grande escala já permitiam uma nova forma de comercializar. Isto quer dizer, que se formos analisar, o ‘novo normal’ sempre esteve presente em nossas vidas e talvez ele esteja tendo mais impacto agora devido à pandemia que assola não somente o Brasil, mas o mundo.
No que se refere as profissões, sabemos que sempre houve tendências de mudanças, mas lógico, que isto se acelera quando há um problema de ordem mundial que inverte a lógica de fazer negócios e, em síntese, de viver e de conviver. Nunca tivemos que dialogar tanto com a tecnologia e de forma tão rápida como agora.  Segundo o economista Ricardo Amorim (2020) há algumas profissões que irão crescer, como o educador físico, o yotuber, o operador de drones, o motorista de Uber. Para ele também há profissões que tendem a desaparecer e/ou ter menos importância como atendentes de telemarketing, contador, vendedor de varejo, corretores de imóveis. Estes são somente alguns exemplos.
Na área de comunicação, segundo Samantha Mazerro (2020), pesquisadora do Profuturo, irão ter mais relevância o “Gerente de Eco-relações: profissional que irá se comunicar e trabalhar com consumidores, grupos ambientais e agências governamentais para desenvolver e maximizar programas ecológicos; Gerente de Marketing e-commerce: gerencia o desenvolvimento e implementação de estratégias de web sites para vender produtos e serviços”, isto só para citar alguns. 
Diante dos comentários ora realizados, acreditamos que teremos que incentivar os alunos a ler, pesquisar mais e chegar ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) mais maduros quanto ao mercado de trabalho que irão enfrentar.



segunda-feira, 25 de maio de 2020

A escolha de Sofia em tempos de Covid-19


Simone Antoniaci Tuzzo

Por várias vezes desde o início da pandemia do Covid-19 a imprensa tem apresentado especialistas que em suas falas temem a necessidade de realizar a "escolha de Sofia" caso não exista leitos, respiradores entre outros equipamentos de logística suficientes para enfrentar o novo coronavírus, implicando no colapso do Sistema Único de Saúde.
Em termos práticos o isolamento social é imposto para que o menor número possível de pessoas seja contaminado e com isso não chegue aos hospitais uma multidão de doentes e os profissionais sejam obrigados a optar entre duas escolhas igualmente perturbadoras, ou seja, quem será ou não atendido.
É claro que existem regras jurídicas asseguradas para idosos, crianças, adolescentes, jovens, portadores de necessidades especiais, portadores de patologias graves, pessoas pertencentes a grupos vulneráveis, até liminares concedidas pelo sistema judiciário caso faltem leitos em hospitais, mas na prática, é mais do que isso. É o front, é a deliberação daqueles que estão na primeira linha de batalha e que precisam decidir.
Mas será que todos sabem o que significa o termo "escolha de Sofia" e de onde ele tem origem?
Escolha de Sofia é uma metáfora que significa fazer escolhas difíceis de acordo com a chance de sucesso de tratamento, considerando a idade do paciente, se esta pessoa tem outras doenças, a gravidade do seu estado e a possibilidade de reverter esse quadro.
A escolha de Sofia não é considerada até que os recursos se tornam tão escassos que isso não permite o tratamento de todos os pacientes que precisam ser atendidos nas UTIs, por exemplo.
Assim, escolha de Sofia significa fazer uma escolha muito, muito difícil, em um momento onde não se tem escolha, onde o impacto da decisão será sempre o da perda, do trágico, do ruim. No caso da Covid-19 é a existência de uma medicina de catástrofe, onde se depara com uma decisão quase impossível de ser tomada.
"A escolha de Sofia" é uma expressão que invoca a imposição de se tomar uma decisão difícil sob pressão e enorme sacrifício pessoal. Ela se tornou uma metáfora utilizada em situações nas quais nenhuma solução é satisfatória. A opção entre duas alternativas igualmente insuportáveis.
Mas como se originou essa expressão? A origem da expressão é uma história de horrores, um acontecimento trágico, ocorrido nos Campos de Concentração do Nazismo, em Auschwitz, numa época em que ocorreram os mais desumanos e cruéis crimes da História da Humanidade.
O escritor americano Willian Clark Styron relatou num romance filosófico a tragédia vivida por Sophie Zawistowska, sob o título original Sophie’s Choise. O romance foi escrito em 1979 e posteriormente foi adaptado para um filme homônimo com estréia em 1982 com a atriz  Meryl Streep ganhando o Oscar de melhor atriz pela brilhante interpretação de uma Polonesa chamada “Sofia”. Na trama ela, filha de pai anti-semita, é presa sob acusação de contrabando num campo de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e logo ao chegar com um casal de filhos pequenos é forçada por um sádico oficial nazista a escolher apenas uma das crianças para seguir na fila da prisão, a outra iria diretamente para a fila da morte, da execução.
No caso dela recusar a escolha, as duas crianças morreriam na câmara de gás, obrigando Sofia a tomar a terrível decisão.
Sofia sobrevive e o trauma é relembrado por ela em 1947, quando, morando em Nova York e casada com um judeu americano chamado Nathan, vive um triângulo amoroso com Stingo, um aspirante a escritor e nos mostra uma mulher entregue a uma relação alucinante e destrutiva, impermeável a qualquer felicidade capaz de desviá-la do puro e simples aniquilamento.
Apesar de ser reputada como uma decisão drástica e excepcional, a escolha de Sofia durante a pandemia do Novo Corona Vírus é uma deliberação que perpassa pelo crivo racional, já que a situação levada ao extremo, ou seja, a completa saturação dos recursos na UTI, cria um “gargalo” no atendimento à população.
Dentro da “escolha de Sofia”, a inquietação surge: seria legal optar pelo tratamento do paciente que tenha maior chance de recuperação em detrimento do outro?
Qual paciente deve o profissional da área de saúde priorizar?
A resposta surge quase que intuitivamente, aqueles que têm mais chances de viver.
A discussão adentra a Bioética e o Direito.  Daí a importância de discutirmos esse tema, afinal, enquanto muitos precisam circular, outros podem ficar em casa. Enquanto muitos consideram a doença uma coisa amena e passageira, temos cientistas que afirmam o contrário.
Precisamos da consciência e da responsabilidade de cada cidadão, afinal, como afirmou Sartre “somos condenados a ser livres” e a liberdade pode ser muito dolorosa para aqueles que não sabem o que fazer com ela.  

Simone Antoniaci Tuzzo é Relações Públicas, Pós-Doutora em Comunicação, professora do Curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Goiás – UFG. E-mail: simonetuzzo@hotmail.com

quinta-feira, 21 de maio de 2020

TCC: QUE TAL ESCREVER SEU PROJETO DURANTE A PANDEMIA?

Profa. Dra. Maria Francisca Magalhães Nogueira

Gosto muito de escrever pensando nos alunos. E, neste breve                                                              texto, me dirijo aos alunos do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Ele é um importante instrumento da vida acadêmica, em que o estudante tem a possibilidade, ainda como estudante, de usar suas múltiplas potencialidades.
Talvez fosse interessante aproveitar a pausa das aulas, que a pandemia está proporcionando, para elaborar o projeto de TCC, quer seja a monografia e/ou mesmo para o projeto experimental.
Vale lembrar que todo TCC parte de um projeto de pesquisa que é um guia de ação, a ser modificado durante a caminhada. No entanto, torna-se praticamente impossível elaborar um projeto sem leituras prévias sobre o tema a ser tratado. Nesta etapa os alunos costumam ficar embaraçados, porque não se acostumaram ao hábito de leitura durante os primeiros anos do curso.
A teoria é importante, porque ela “não é o conhecimento; ela permite o conhecimento. Uma teoria não é a solução; é a possibilidade de tratar um problema. As teorias são sistemas de idéias que servem para interpretar o real e que podem ser insuficientes ou ilusórias” (Edgar Morin). Quer dizer que a teoria irá ajudar a descortinar o caminho a ser seguido e interpretar o que os estudantes escolheram como tema a ser investigado; levando-se em consideração que todas as fases deste percurso são simultaneamente construídas. Portanto, para evitar percalços, deve-se considerar fundamental o roteiro para se pôr a caminho.
Por vezes os iniciantes em investigação consideram desnecessária a elaboração do projeto de pesquisa. No entanto, iniciar uma pesquisa sem projeto é lançar-se à improvisação. A elaboração do projeto fornece a quem o elabora visão global e especifica do objeto a ser investigado. Na efetivação do projeto, nada é realizado aleatoriamente, sendo fundamental a escolha do tema em um universo largo de assuntos. Ao mesmo tempo delimita-se o problema e os objetivos; coleta-se os dados a partir de uma boa definição de como realizá-los na metodologia; analisa-se e interpreta-se os dados até o relatório final. Algumas perguntas ajudam a montar o guia a ser seguido: O que? (objeto), para quê? (objetivo), por quê? (justificativa), como? (metodologia de pesquisa).
Vale ressaltar que os conhecimentos de normalização, que são as regras da ABNT, são muito importantes na elaboração do relatório final.
Tendo em vista tudo que foi dito, aproveitem para empreender esta viagem instigante e desafiadora que é o TCC. Trata-se de um caminho de confronto com o conhecimento adquirido até então e com aquele que ora se inicia. Então, mãos à obra.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Sobre as possibilidades de cortes de verbas das Ciências Humanas.

Em tempos tão sombrios de isolamento decorrente de uma pandemia, de repente e não mais que de repente mais um devaneio político. Vamos falar sobre as “intenções” que decorrem dos cortes de verbas para as Ciências Humanas. Para início de conversa, lembro que toda Ciência, cada uma delas a seu modo, tem sua importância e significado, sua riqueza e contribuição. Assim, não há Ciência mais ou menos importante, melhor ou pior, boa ou ruim. Há Ciências e todas devem ser respeitadas. No caso das humanidades estudamos contextos, lidamos com cenários, estudamos fenômenos da sociedade, conjunturas sociais, políticas, aspectos sociais das diversas realidades humanas.

Estudamos e buscamos compreender o coletivo, compreender também o outro em sua singularidade. Aprendemos a olhar a vida ou o que chamam de “teatro da vida” para além de um simples espetáculo, aprendemos a olhar para sua essência de forma crítica. As Ciências existem e se completam em suas complexidades. Cada uma com seu formato singular, mas sobretudo com a força de seu efeito conjunto.

Explico: Como pensar em pesquisar, tratar, compreender uma doença, sem avaliar um contexto social, sem refletir sobre uma conjuntura econômica e política, sem disseminar informações confiáveis? como pensar uma sociedade que precisa se reinventar no meio do caos? como pensar novos processos educativos, exigidos em tempos de isolamento? como nos reinventar, enquanto indivíduos que exercem cotidianamente diferentes papéis? As Ciências Humanas nos ajudam a encontrar caminhos para essas reflexões.

As Ciências unidas se fortalecem e consequentemente fortalecem à sociedade. Sociedade que hoje, mais do que nunca, paga o preço por suas desigualdades sociais advindas de um sistema político, social e econômico fragilizado. Paga o preço, pelo fato de milhões terem pouco demais e poucos terem milhões. O preço de ter que se reinventar à força. 

Nesse cenário precisamos valorizar a educação. Sabemos que é papel da Universidade formar cidadãos com pensamento reflexivo. Diante disso, quero lembrá-los de um episódio: certa vez, disseram por aí (recordem, porque não faz muito tempo) que Universidade era lugar de balbúrdia. Digo: Universidade, não é lugar de balbúrdia, é lugar de respeito, conhecimento, ciência, lugar de pesquisa. Digo e repito: balbúrdia?! Não. Por isso não vamos nos calar, sentir que nossas mãos estão atadas, que nossos pés estão imóveis e que nossa voz está silenciada. Não, não é o momento. O momento é de defesa, é de luta, de acreditar que a voz da Ciência é também a voz da sociedade. 

Nesse contexto, a Universidade tem mostrado seu papel, sua força. Tantas pesquisas e avanços e o lugar da balbúrdia, mostra sua competência. No atual cenário, são professores, pesquisadores e estudantes mobilizados mundialmente para responder à uma pandemia. Cada Ciência colaborando com seu potencial. Por isso, devemos defender a educação, a pesquisa e a Universidade. Defender o saber, o conhecimento. Defender, sobretudo, a formação daqueles que serão a resposta à um futuro melhor. Somos maiores e mais fortes do que essa triste realidade e cenário que nos assombra. 

Estamos isolados, mas não silenciados. Estamos distantes, mas não menos fortes, estamos com medo, mas não menos encorajados. Que a luta não seja de um, mas de todos! Que dentro da “anormalidade”, possamos pensar em um “novo normal” e que mesmo separados, possamos estar unidos de outras formas!

Profa. Dra Adriane Nascimento 

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A comunicação não-verbal e as vídeos conferências

Divina Eterna Marques
Divina Eterna Vieira Marques é professora do Curso de Relações Públicas da FIC/UFG. Doutora em Ciências Ambientais (UFG). Mestra em Filosofia (PUCCAMP). Especialista em Políticas Públicas da UFG.

Maria Francisca Magalhães Nogueira
Professora do curso de Relações Públicas da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) da Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Coordenadora o Grupo de Pesquisa Complexidade e Comunicação da UFG/CNPq. E-mailmfrancisnogueira@gmail.com.

Talvez percamos muito da comunicação gestual e visual em nossas reuniões de trabalho, através da videoconferência, neste período de isolamento social. Este assunto surgiu de indagações das autoras acerca deste meio de comunicação entre nós professores.
À primeira vista não deixa de ser tentador considerar que a reunião realizada com câmera de vídeo pode substituir as reuniões presenciais. Só que em nossa conversa chegamos à conclusão que perde-se parte das expressões faciais e dos gestos físicos. Afinal o corpo fala e muito nas reuniões presenciais.
 Em uma videoconferência as expressões físicas ficam muito limitadas, porque há duas dimensões em vez de três. Geralmente ficamos sentados e quietos. Só vemos os rostos dos participantes. Ao contrário das reuniões presenciais. “Quem não se lembra de alguma reunião que tenha participado onde se percebeu caras e bocas, olhares atravessados, sorrisos de canto de boca, olhares distantes ou punhos cravados na mesa” (Nogueira e Faria. A comunicação não-verbal nas organizações: o corpo fala. Comunicologia: Brasília, 2013, p. 115).
 É claro que o corpo como linguagem não-verbal, comporta um mundo de significações. Ele pode dizer muito acerca dos interlocutores, das instituições e de sua forma de se comunicar. É que, de certa forma, a linguagem veiculada por meio do corpo é fabricada e modulada pela cultura da instituição. Sendo assim, para o entendimento das relações entre as pessoas, deve-se tentar analisar o que a linguagem corporal está dizendo, considerando-se que somos indivíduos únicos. Então, os gestos podem ser reveladores das relações de comunicação entre nós. Afinal, o corpo fala, expõe ‘verdades’, reforça ideias, enfim dá ênfase a comunicação. Poder-se-ia, então, perguntar: será que vamos perder, com o tempo, este mar de mensagens que comunicação gestual nos traz? Será que vamos dicotomizar a linguagem verbal e gestual reafirmando o pensamento cartesiano, que separa corpo e alma – res cogitans/ res extensa? Tomara que não. Passada esta pandemia espera-se voltar a nos reunir presencialmente, obviamente sem menosprezar as vantagens de unir reuniões online com reuniões presenciais.

Por que as videoconferências nos esgotam psicologicamente?

Especialistas concluem que a ausência de contato físico exige mais atenção

crise do coronavírus atingiu em cheio as organizações. Elas se viram obrigadas a forçar o teletrabalho, exceto em casos imprescindíveis, para evitar a interrupção das atividades. Esse novo formato enviou milhares de pessoas para suas casas e as forçou a adaptar nelas um novo espaço de trabalho, que precisa ser compartilhado com os demais moradores. E a tecnologia veio em seu socorro, com um desempenho tão bom que é possível até mesmo realizar reuniões por videoconferência, obtendo resultados, a priori, semelhantes aos de um encontro cara a cara. Mas é assim mesmo? Alguns especialistas alertam que o uso de ferramentas para videoconferências aumenta o nível de estresse dos participantes.

As complicações da ausência de comunicação não verbal

É tentador pensar que uma reunião realizada com câmera de vídeo pode ser o substituto adequado para uma presencial, mas a verdade é que o corpo humano as decifra de uma forma completamente diferente, segundo as conclusões de Gianpiero Petriglieri, professor do Insead, e Marissa Shuffler, professora da Universidade Clemson. Esses especialistas se referem às chaves de comunicação que se perdem em uma videoconferência, como o tom de voz, uma parte das expressões faciais e os gestos físicos. Ao não serem tão evidentes em uma videoconferência, o participante se vê obrigado a prestar mais atenção e no fim, principalmente se houver muitos participantes, a reunião pode ser esgotadora.

“A linguagem não verbal é o primeiro ingrediente da comunicação oral”, explica ao EL PAÍS Yago de la Cierva, professor de Gestão de Pessoas em Organizações do IESE Business School, da Universidade de Navarra. “Equivale a mais de dois terços do que a pessoa quer compartilhar: fornece a interpretação e o significado.” Em uma videoconferência, isso fica muito limitado, “há duas dimensões em vez de três, geralmente ficamos sentados e quietos, e o controle do espaço é muito importante”, assinala o especialista. A ausência dessa terceira dimensão é que desencadearia, no final, um esforço psicológico excessivo.

“Quando um dos componentes da comunicação está ausente ou limitado − como acontece nas videoconferências −, emissor e receptor se veem obrigados a prestar mais atenção e a fazer um esforço maior para se expressar e para entender corretamente um ao outro”, explica Ignacia Arruabarrena, professora associada do Departamento de Psicologia Social da Universidade do País Basco. Esse desgaste se intensifica “se houver mais pessoas envolvidas na videoconferência”, segundo Arruabarrena.

Silêncios incômodos e a fadiga psicológica da quarentena
Mas não seria justo atribuir o estresse às videoconferências, e sim ao próprio confinamento, que provoca uma apatia, e também à mudança do ambiente de quem trabalha remotamente. A obrigação de ficar encerrado em casa propícia “um estado de profunda distração, no qual estamos todos nós nesta pandemia”, segundo De la Cierva. “Estamos inquietos, com um tremendo déficit de atenção que nos faz vagar de uma coisa para outra porque não conseguimos nos concentrar.” Essa situação faz com que, no meio de uma videoconferência, os participantes, em suas respectivas residências, tendam a se distrair dando uma olhada no celular ou nas redes sociais. “No final, captamos menos porque estamos distraídos.”
Outra circunstância que causa tensão nas videoconferências são os silêncios: em um encontro presencial, lida-se com eles de forma natural, sem que seja preciso forçar nada, mas não ocorre a mesma coisa em uma reunião com uma câmera na frente, na qual só vemos os rostos dos participantes. Quem já participou de uma teleconferência sabe que as intervenções não fluem de forma natural, a não ser que haja um moderador que dê a palavra; o habitual é que uns atropelem os outros, ou, pelo contrário, que os intervalos entre cada fala sejam preenchidos por silêncios incômodos.
Como se isso não bastasse, as videoconferências têm uma dificuldade adicional que, paradoxalmente, deveria facilitar as coisas: a audiovisual. “A imagem televisiva precisa de manipulação para que reflita a verdade”, explica De la Cierva. “Se quisermos parecer naturais, temos de atuar um pouco; se quisermos que nosso rosto saia normal, temos de nos maquiar; se quisermos que nossa voz se escute melhor, temos de subir ou baixar o tom de uma forma meio artificial.” Tudo isso “exige um esforço que provoca tensão em quem não está acostumado − em resumo, ficamos esgotados antes”.
As videoconferências chegaram para ficar
Não são, é claro, uma ferramenta nova, mas a inesperada irrupção das ferramentas para reuniões por vídeo não parece ser algo passageiro. Entre elas, a Zoom está conquistando grande parte do protagonismo no mercado, passando de 10 milhões para 300 milhões de usuários diários em poucos meses (só no último mês, a base de usuários cresceu 50%). Derek Pando, diretor de marketing da empresa, defende um bom planejamento antes da convocação de uma videoconferência: “Uma boa regra geral antes de agendar uma reunião é considerar se vale a pena o tempo que você vai investir: um e-mail rápido, uma mensagem por chat ou um telefonema de 30 segundos pode ser suficientes para comunicar sua mensagem e não é tão exigente como uma reunião por vídeo”.
Pando também sugere, quando possível, ser rigoroso no uso dos locais. “Se você se conectar com seus amigos ou sua família na cozinha, em vez de usar o escritório onde trabalha, criará um clima mais relaxado e evitará a sensação de que está em outra ligação de trabalho”, explica. O sucesso dessas plataformas motivou que gigantes como o Facebook a acelerar sua entrada no mercado com o Rooms, em um primeiro momento, permitindo posteriormente as chamadas de vídeo de até oito usuários no WhatsApp.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Conversas estapafúrdias em tempos surrealistas


 Divina Eterna Vieira Marques*
Maria Francisca Magalhães Nogueira**

Domingo à tarde passei bem uma hora numa chamada de vídeo com minha amiga e colega de Faculdade, Maria Francisca, mais conhecida como Francis. O que eu gostaria mesmo era de uma conversa presencial, precedida de um abraço, acompanhada de um vinho tinto seco. Mas, o protocolo diz que não.  A conversa girou em torno, óbvio, da Covid-19, começando por comentar que algumas pessoas estão evitando dizer o nome daquilo que chamam “a coisa”, como se evitando falar o nome estivesse evitando a realidade.
Uma realidade difícil de ignorar por mais que a gente feche os olhos e os ouvidos aos canais de TV que falam sobre o assunto o dia inteiro. Fazer de conta que não existe não é um bom caminho: “O pior cego é aquele que não quer ver”.  Comentei com ela que  a idade me caiu assim, de repente, ou talvez a consciência dela, quando me incluíram no grupo de risco, quando começaram a brincar de caminhão cáta véio. Foi aí que percebi que vitalidade não faz diferença na certidão de nascimento. Ela concordou. Até porque nascemos no mesmo ano.
Envelhecer não tem nada de estapafúrdio, mas é surrealista porque leva um tempo pra você acreditar que chegou lá, a ficha demora a cair. A conversa foi estapafúrdia porque começamos a divagar, assim sem prova nenhuma, apenas apelando  para receios que assomam devido a uma série de fatos políticos e ilações suscitadas pela observação do dia a dia dos fatos.  O governo (com letra minúscula mesmo) não queria tanto e conseguiu fazer uma reforma da previdência que   utilizou como argumentação um grande número de aposentados que dão prejuízo ao erário público?  Então, o que significa chamar de “gripezinha” uma pandemia assim reconhecida pelo Organização Mundial de Saúde, O que significa dizer que “homem  que é homem não pega a doença”, atleta também não?
Ora, se esses grupos não pegam a doença, sobrou pra quem?  Mulheres, fracotes e, especialmente, os velhos. As pessoas estão morrendo diariamente cada vez mais? E daí? disse Ele.  Há dez anos atrás, eu diria que essa conversa era sobre um filme de ficção bizarro, sem cientificidade alguma. Comédia? Não. É sério demais pra rir. Mas, que o representante máximo da Nação – infelizmente, até hoje não entendi  bem como isso aconteceu -  tem rido na nossa cara, feito pouco das pessoas minimamente inteligentes, isso ele tem.
 Enfim, será que fazendo pouco da pandemia, fazendo pouco da vida humana,  deixando de tomar as providências que vemos por parte dos representantes das Nações de primeiro mundo (Óbvio que os EUA não estão  incluídos), será que assim fazendo “ele” quis resolver à maneira dele o problema com os velhos, com os pobres?  E essa é outra ilação – que me perdoem meus colegas de academia pela divagação – mas , deixar milhões de pessoas correrem para a Caixa Econômica Federal em busca dos 600 reais prometidos, muitos sem máscara, sem observar o distanciamento, não é uma estratégia  maligna de acabar com os pobres, ao invés de buscar saídas para a pobreza?  Sim, porque o contágio nesses locais é iminente.
Outros temas vieram à tona, como a ilação, até hoje não comprovada por fontes seguras, de que a China teria fabricado o vírus em laboratório para desencadear uma guerra biológica. Será? Convenhamos, quem ganharia com isto e de que forma, se os próprios chineses tiveram baixas humanas e prejuízos econômicos?  A conclusão a que chegamos, Francis e eu, foi a mesma: ficar em casa mexe com o juízo da gente e o melhor mesmo é que tudo isto passe e que possamos, num futuro breve, assistir um bom filme, de preferência um documentário, contando o que realmente aconteceu.

* Divina Eterna Vieira Marques é professora do curso de Relações Públicas da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG , Doutora em Ciências Ambientais (UFG), mestra em Filosofia (PUCCAMP) , especialista em Políticas Públicas (UFG).

**Maria Francisca Magalhães Nogueira é professora do curso de Relações Públicas da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, Doutora em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo, mestra em Comunicação pela USP.

Cinema francês em casa


 Em tempo de crise, cabeça cheia de incertezas. Nesses momentos, também é preciso descansar, digerir os acontecimentos. Nada melhor que um bom filme para desanuviar a mente. Muito mais que uma benéfica distração, a arte pode, inclusive, auxiliar a compreender o que estamos vivendo.

O tradicional festival de cinema francês Varilux teve sua versão presencial cancelada em 2020 devido à pandemia de Covid-19. Mas nem por isso vamos ficar sem filmes. Por meio de uma parceria com a plataforma de streaming Looke, surgiu o Festival Varilux em casa. São 50 títulos de gêneros que vão do filme histórico às animação e estarão disponíveis gratuitamente durante 4 meses. 

Têm de tudo um pouco, basta procurar pelo seu tipo preferido. É uma ótima oportunidade para conhecer mais da produção recente do cinema francês. Além disso, vale pela experiência de entrar em contato com outras narrativas e outros modos de contar estórias diferentes do padrão hollywoodiano.  

Ficou curioso? Saiba como ter acesso aos filmes aqui: http://festivalvariluxemcasa.com.br/

João Daniell Oliveira
Professor de fotografia e  audiovisual da FIC - UFG.

Covid-19: marcas mudam logos para conscientizar sobre distanciamento social

O Mercado Livre, plataforma de marketplace, foi uma das empresas que mudaram temporariamente sua identidade visual (Foto: Divulgação)
O Mercado Livre, plataforma de marketplace, foi uma das empresas que mudaram temporariamente sua identidade visual (Foto: Divulgação)
Nos últimos dias, empresas de diversos segmentos decidiran reformular seus logotipos como forma de promover o isolamento social, uma das medidas aconselhadas pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De forma criativa, as marcas têm chamado a atenção sobre a importância da medida no combate à covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, que já infectou mais de 640 mil pessoas em todo o mundo. 
As montadoras AudiVolkswagen e a empresa de comércio eletrônico Mercado Livre são algumas das companhias que aderiram à iniciativa. Confira algumas marcas e suas versões atuais. 
Mercado Livre
Covid-19: marcas mudam logos para conscientizar sobre distenciamento social (Foto: Divulgação)
Covid-19: marcas mudam logos para conscientizar sobre distenciamento social (Foto: Divulgação)
O Mercado Livre, plataforma de marketplace, foi uma das empresas que mudaram temporariamente sua identidade visual para promover o distanciamento durante a pandemia. A companhia adotou o slogan "Juntos. De mãos dadas, ou não".
Volkswagen
Volkswagen (Foto: Divulgação)
Logotipo da Volkswagen durante a pandemia (Foto: Divulgação)
A fabricante de automóveis alemã distanciou ainda mais as letras “V” e “W” do logotipo.
Audi
Novo logotipo da Audi durante a pandemia (Foto: Divulgação)
Novo logotipo da Audi durante a pandemia (Foto: Divulgação)
Outra fabricante que aderiu ao movimento foi a Audi. A campanha começou nos Estados Unidos e depois chegou ao Brasil. No logotipo reformulado, a empresa separou as tradicionais argolas para incentivar que as pessoas fiquem em casa e evitem o contágio.
McDonald's
Novo logotipo do McDonald's durante a pandemia (Foto: Divulgação)
Novo logotipo do McDonald's durante a pandemia (Foto: Divulgação)
O McDonald's Brasil separou seus icônicos arcos dourados para incentivar o distanciamento social durante a pandemia de coronavírus. O objetivo é explicar que, apesar da separação temporária entre seus clientes e a empresa causada pelo fechamento de alguns de seus restaurantes, eles "sempre podem estar juntos".
Diretor criativo recria logos de marcas famosas
Jure Tovrljan, diretor criativo da Eslovênia, reformulou os logotipos de algumas das marcas mais famosas do mundo em meio à pandemia de covid-19. As recriações de Tovrljan mostram os círculos da Mastercard e os anéis das Olimpíadas separados, a sereia do Starbucks usando máscaras faciais para se proteger do vírus e o nome LinkedIn como "LinkedOut". Veja abaixo algumas das recriações do designer:
O logotipo das Mastercard: "Antes e depois" (Foto: Reprodução)
O logotipo das Mastercard: "Antes e depois" (Foto: Reprodução)
Logotipo do Starbucks usa uma máscara facial (Foto: Reprodução,)
Logotipo do Starbucks usa uma máscara facial (Foto: Reprodução,)
Nome da cerveja Corona é substituído por: Precisa-de de um novo nome (Foto: Reprodução)
Nome da cerveja Corona é substituído por: "Precisa-de de um novo nome" (Foto: Reprodução)
Ele também redesenhou o logotipo da NBA para simbolizar o cancelamento da temporada (Foto: Reprodução)
Ele também redesenhou o logotipo da NBA para simbolizar o cancelamento da temporada (Foto: Reprodução)

Fonte: 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Por um futuro regenerativo

Há pouco mais de 100 dias, o mundo inteiro mudou — em alguns aspectos, de forma definitiva. Se fomos tomados pela insegurança de saber que muita coisa não será como antes, por outro lado, tendências apontam oportunidades bastante promissoras para o futuro que ainda construiremos juntos.
Considerando a intensidade e a velocidade das mudanças do cenário atual, é compreensível que boa parte do nosso tempo seja utilizado em busca de adaptações imediatas para o dia, semana ou mês seguintes. No entanto, é imprescindível que adotemos também uma visão de longo prazo sobre os impactos e projeções dessa crise. É necessário usar o momento atual para pensarmos e nos prepararmos para as novas possibilidades, mentalizarmos como arquitetar a reconstrução do mercado, muito melhor do que sempre foi.
Com isso em mente, identificamos três drivers comportamentais que passam por drástica aceleração. Juntos, eles constroem a base para um modelo econômico mais transparente, justo e responsável. Conectando esses pontos, vemos surgir uma Economia Regenerativa. A compreensão das características deste novo modelo e das formas de negócio que dele emergem facilitará não só as tomadas de decisão de curto prazo, mas principalmente motivará líderes e suas equipes a desenharem cenários futuros de longo prazo muito promissores.

Os 3 pilares do novo mundo

Driver #1 — Consumo + Digital

Muitos de nós estão hoje em pleno isolamento, mas conectados praticamente o dia todo. Nunca fizemos tantas coisas virtualmente. Para alguns, isso significou adotar o trabalho home office da noite para o dia, enquanto ainda ajudam no ensino dos filhos que repentinamente também se tornou à distância. Para outros, a oportunidade de trabalho foi restringida aos aplicativos de entrega, atendendo à explosão das mais diversas categorias de consumo via e-commerce. Segundo uma pesquisa realizada pela Ebit | Nielsen, houve um crescimento maior do que a média no número de novos consumidores do e-commerce brasileiro (ou seja, daqueles que realizaram uma compra online pela primeira vez) após o primeiro caso de Covid-19 no país.
A princípio, esse cenário impactou positivamente empresas nativas digitais e negativamente aquelas ainda pouco digitalizadas. Em um segundo momento, vemos a retomada de crescimento daquelas que estão sabendo acelerar suas estratégias de digitalização. De toda forma, comercializar qualquer tipo de produto ou serviço passa a demandar uma operação de e-commerce com entrega, troca e atendimento minimamente eficazes.
A aceleração do consumo digital pede outras medidas de atenção, como o crescente número de consumidores cada vez mais cientes do valor dos seus dados e, exatamente por isso, mais preocupado com sua privacidade. Especialmente no Brasil, onde estamos às vésperas da finalização do texto da nova LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais). O isolamento social destrava as últimas ondas de negócios digitais, tornando esse tema emergencial.

Driver #2 — Consumo + Consciente

Não há dúvidas que esta crise impacta tanto a saúde quanto a economia. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada entre 3 e 5 de abril, aponta que 51% das pessoas afirmam já terem perdido renda. Outros estudos globais apontam como a maioria teme que o cenário possa vir a prejudicar suas finanças.
Nas primeiras semanas da crise, a preocupação com a redução dos ganhos levou a uma queda brusca no consumo de tudo que não fosse considerado prioritário. Com o passar do tempo, observamos muitas categorias voltarem a ser consumidas, especialmente através de canais digitais, mas com um olhar muito mais crítico. O que constatamos é a aceleração da tendência do consumo cada vez mais consciente, que exclui os excessos e prioriza o que é essencial. Valoriza-se como nunca a qualidade, mas também a busca pelo menor preço — sobretudo em lares com orçamentos menores. Em outras palavras, o consumo nunca foi tão preciso como agora.
À medida em que a lógica de priorização dos consumidores muda, projeta-se uma lenta recuperação pós-crise de categorias como itens de luxo, automóveis e restaurantes. Ao mesmo tempo, segmentos que contavam com um distanciamento cômodo, como alimentação (com deliveries e fast food) e limpeza (o Brasil ainda tem 6 milhões de empregadas domésticas), agora constituem parte importante da rotina na quarentena e são repensados não apenas sobre a real necessidade de se contratar esses serviços, mas principalmente sobre a qualidade dos produtos que se vinha recebendo.
Tal consciência emerge, sim, a partir de novas premissas financeiras, mas também ambientais. Uma geração apelidada de sustainable native — e personificada na figura icônica de Greta Thunberg — assistiu ao seu maior desejo ambiental virar realidade nestas semanas em que o mundo parou, possibilitando a visível redução na emissão de poluentes no mundo inteiro por conta do isolamento social. Em São Paulo, por exemplo, a primeira semana da quarentena foi suficiente para fazer a poluição do ar cair pela metade. Esse mesmo maravilhamento espalha-se por todas as grandes cidades do mundo e, não por acaso, vemos cada vez mais fotos de céus “antes e depois da crise” tomarem conta da internet.
Se hoje ainda damos passos atrás em relação ao uso de embalagens descartáveis em nome dos cuidados da saúde, podemos esperar que as discussões em torno da crise climática também sejam aceleradas após o fim do surto da pandemia. O filósofo espanhol Paul B. Preciado sabiamente correlaciona as duas questões, afirmando: “Nossa saúde não virá da imposição de fronteiras ou separação, mas de um novo equilíbrio com outros seres vivos do planeta”.
Prejuízos financeiros massivos associados à redução tangível da poluição com as ruas vazias, aceleram um consumo cada vez mais consciente do necessário e de qualidade a preço justo. Os consumidores esperam cada vez mais transparência das empresas, afinal, a valorização do dinheiro e da qualidade considera também maior atenção à cadeia de produção e dos seus impactos socioambientais.

Driver #3 — Consumo + Social

Um inegável ponto de impacto dessa crise é a visibilidade sobre as fragilidades e desigualdades do sistema atual. Se o vírus não discrimina classe social, também é verdade que ele impacta mais as populações que já vivem em situação de vulnerabilidade. Limitações dos equipamentos de saúde, falta de saneamento básico, precariedade nas condições de moradia e falta de acesso à informação sobre prevenção são os 4 principais motivos que tornam as periferias mais vulneráveis ao coronavírus, segundo reportagem do jornal Nexo.
Além do impacto na saúde, uma pesquisa do Data Favela mostra que, sem ações específicas, 86% dos moradores de favelas brasileiras passarão fome por causa do coronavírus.
No âmbito dos pequenos negócios, o SEBRAE divulgou nos últimos dias que os MEIs (Microempreendedores Individuais) têm apenas, em média, oito dias de caixa para pagar seus compromissos financeiros — o que evidencia claros limites para atravessar uma crise de tempo indeterminado.
A solidariedade torna-se progressivamente um dos maiores efeitos positivos da crise, e se estende do plano individual até as maiores corporações do país. Segundo a ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos), o volume de doações filantrópicas bateu recordes na história recente do Brasil, já tendo ultrapassado os 3 bilhões de reais.
O que começou como uma grande oportunidade de fortalecimento da imagem e reputação das empresas doadoras, transforma-se cada vez mais em expectativas consolidadas dos consumidores. Quanto maior a instituição, mais se espera que ela possa usar o seu poder — inclusive econômico — para socorrer os seus stakeholders, sempre respeitando a ordem de prioridade: de dentro para fora, ou seja, primeiramente protegendo a saúde e o emprego de funcionários, depois fornecedores e então os ecossistemas do seu entorno.
A consciência de que populações periféricas e micro e pequenos empreendedores são os mais atingidos pela crise reforça o senso de comunidade e a preferência por consumir de locais, de pequenos produtores ou de grandes empresas que investem socialmente. No longo prazo, essa expectativa alinha-se com a nova lógica de construção de reputação que já vínhamos estudando na Box1824: ela é cada vez menos controlada por imagens idealizadas e projetadas pela propaganda de massa para ser cada vez mais avalizada pela rede, a partir do seu impacto real em todo o seu ecossistema (de dentro para fora).

Economia Regenerativa

A combinação desses três drivers nos apresenta um consumidor mais conectado, exigente e solidário em decorrência da profunda crise que vivencia. Suas expectativas frente às empresas (especialmente em relação às líderes do mercado) são enormes e exigem medidas abrangentes, transparentes, que gerem impacto e transformem modelos de negócio.
Essa nova mentalidade está reformando a lógica de criação de valor do nosso sistema econômico: enquanto na economia clássica ela estava na produção industrial e na posse, na economia compartilhada passou a ser expressa pelas experiências centradas no consumidor. Agora, na era da economia regenerativa, a criação de valor passa a ser medida pelo impacto positivo do negócio junto às pessoas e ao planeta.
Obter resultados nesse novo cenário, para muitos, exige uma mudança de mentalidade. A demanda antes mapeada pelo desejo dos consumidores, passa também pela identificação de grandes problemas estruturais das regiões onde as empresas estão inseridas. Construir soluções que levem acesso a trabalho, educação, mobilidade ou serviços financeiros para quem mais precisa torna-se o principal indicador de construção de valor no mundo contemporâneo. Não por acaso, a maioria das start ups unicórnio latino-americanas cresceram sob essa premissa, ajudando a construir soluções que respondam a grandes problemas estruturais da região.
Consequentemente, a oferta para atender a essas demandas só pode ser pensada por empresas que se conectem a um propósito não apenas poderoso, mas muito empoderador de si, de todos os seus stakeholders, dos ecossistemas e das regiões onde atuam. Diversos estudos já apontam que empresas com propósitos fortes possuem equipes mais engajadas e clientes mais fiéis, e consequentemente sofrem menos com a volatilidade dos tempos de crise.
Neste cenário, hoje temos a oportunidade de ressignificar todas as relações das empresas, solidificando novas regras mais equitativas e benéficas para todos. O cerne da Economia Regenerativa está em trazer melhorias às pessoas e ao planeta antes de mais nada. Esse movimento é potencializado enormemente por consumidores que, mesmo fragilizados num momento de crise, tornam-se mais conscientes e tendentes a depositar sua confiança nas empresas que empregarão esforços para construir uma realidade melhor para todos.
Nós, da Box1824, não apenas mapeamos esses cenários de futuro, como também assumimos o compromisso de colaborar com sua construção. Por isso, mais do que compreender essa transformação, estamos trabalhando ativamente para produzir inovações metodológicas, conceituais e analíticas que possam ajudar pessoas, empresas e instituições a se conectarem com o futuro de soluções regeneradoras para o mundo. Queremos fazer parte desta transformação e te convidamos a vir junto. Contem conosco.